23.12.08

The Wearable Motorcycle

7.9.08

O triste espectáculo da festa da democracia americana tem sido penoso, da tenebrosa convenção republicana à patética convenção dos democratas só fica a convicção absoluta de que não só estamos a ser enganados como andamos enganados nas nossas mesmas convicções.

« Mort à la démocratie » : ce slogan, tagué sur les murs de l’École des hautes études en sciences sociales de Paris (EHESS) durant le mouvement contre le CPE, a été pris par la majorité des médias comme la preuve de la folie irresponsable de ceux qui occupaient les lieux. C’était toucher là à un tabou. La démocratie, comme le capitalisme d’ailleurs, est devenue l’horizon indépassable de notre époque. Tout discours qui tendrait à la remettre en cause est disqualifié d’avance : on ne veut tout simplement même plus l’entendre.
La démocratie, pourtant, a surtout fait jusqu’à présent la preuve de son échec. Le monde qu’elle domine est toujours un monde de soumission, de privations et de pauvreté. Le droit de vote est censé assumer à lui seul l’expression de la volonté populaire : mais croit-on encore que quoi que ce soit puisse changer grâce à des élections ?

Léon de Mattis

15.3.08

The Sound of Music

Que bem que se está no auditório da FCG! As cadeiras são excelentes e tinham aberto a janela para o parque. Está-se muito melhor do que na Casa da Música (sorry guys, you asked for a meteorite, you got one). O bronze, a madeirinha, os passos abafados, e o maior luxo de todos que é inteiro o Coro da FCG (sorry guys, you do not have one, yet!)
Veio a Páscoa cedo este ano, ainda bem que assim torna-se mais fácil, e fez-se a tradicional paixão do Michel Corboz. Estavam lá as 10.000 pessoas de bem do país com um ar bem e aprumado a ouvir Bach a entrar-lhes por uma orelha e a sair por outra com tal determinação e auto-satisfação que qualquer esforço esclarecedor da crítica é absolutamente supérfluo e largamente deslocado. Desde quando é que MC faz a paixão em Lisboa, desde a segunda guerra? já nem me lembro. Parto do princípio que ainda no tempo do Sete deve ter levado com alguma crítica arrasadora e indignada daqueles arautos da nova música antiga. Por mim, fico-me do lado da burguesia, recosto-me na cadeirinha que me tinha indicado uma menina chiquérrima que fazia de arrumadora e é com indiferença que ouço um Bach completamente adulterado e incompreensivel que nos momentos mais conseguidos soa a mau Beethoven. E até gosto! É Bach na margem do Léman, alternadamente pomposo ou frisch. Fica-se perplexo.
Ao contrário da voz corrente que confunde vivacidade com velocidade, é a maior qualidade de MC o fazer tudo devagar, os tempos são, na generalidade e tirando os corais, excelentes. Para além disso, que não é pouco, reduz-se a paleta deste maestro ao uso nos sitios mais inesperados do pianissimo seguido de crescendo, um gadget que se torna cansativo e faz com que as turbas invariavelmente comecem com a música no coração para acabarem de repente positivamente aos gritos com nosso senhor.
Secção de continuo não houve, é uma questão prática e uma opção perfeitamente legítima mas perde-se em dramatismo, o recitativo ficou assim confiado ao orgão que estava bastante desafinado e que sistemáticamente metia o 4 pés na cadência final para a entrada do coro. Way to go! A aria de flauta fez juz ao aforismo que diz que to-das-as-no-tas-em-bach-são-i-gual-men-te-im-por-tan-tes e provou que se pode vibrar cada semicolcheia. A aria dos dois violinos foi, para quem se desenvencilhou muito bem de outros números (que os há difíceis para os violinos nesta paixão), estranhamente desafinada. O 1º oboé excelente, fosse o segundo com ele.
Do naipe dos solistas nada a assinalar excepto o evangelista que era muito bom. Simão Pedro nem parecia ele próprio naquele dia nefasto e bem pode lavar as mãos das intervenções como Pilatos. Jesus Cristo fazia-me lembrar, que sou pitosga, o dr. Rui Vilar. Não se percebe onde vão buscar esta gente, não há cá cantores?

A rainha da noite veio a Lisboa


Não se pense que a este blogue passou despercebida uma Flauta Mágica que se fez, aliás, a passagem da Rainha da Noite por Lisboa faz-se sempre sentir nos sismógrafos.
Toda a gente diz que correu lindamente.

9.3.08

Expressivo

Como Cavaco Silva está no Brasil, Ricardo Costa falou à nação e disse ao primeiro ministro exactamente o que havia de fazer. Excessivo ou, se quiserem, Expressivo.

7.3.08

Demissão imediata de JMF!

Como não se pode pedir a demissão da ministra da educação, senão cai o regime, pedimos, por desenfado, a do José Manuel Fernandes. Bastou um dia com o futuro director e o Público ficou logo melhor! Faz-me pensar se o jornalismo em vez de parecer cada vez mais uma disciplina de marketing não devia ser antes um ramo do curso de história.
Desde quando é que JMF dirige os destinos do Público? Desde a segunda guerra? Já nem me lembro.

28.2.08

27.2.08

The C+S Blues


Já lá vão uns 15 anos desde que o Prozac era notícia de primeira página. Hoje vem no DN um estudo que questiona a eficácia dos antidepressivos e com efeito passado este tempo todo não parece haver melhoras significativas na depressão que é histórica do povo português que gasta anualmente largos milhões no tratamento e é mesmo um dos campeões europeus no consumo da pastilha.
Há muitas razões mas uma delas deverá ser concerteza o desgastante confronto diário com a irracionalidade e o absurdo, a burocracia e a precariedade.
Poderá dar-se o caso de se dever esta deficiência apenas a uma insuficiente dosagem! Parece-me mesmo que o governo não percebe que todos os ganhos de produtividade que estas reformas e refundações alegadamente originarem se vão perder na voragem da comparticipação da ADSE ao preço do ansiolítico para professores.

23.2.08

Ataque de reacção

O nosso ordenamento constitucional não contempla, felizmente, a figura do senado. Como em todas as sociedades temos contudo um senado informal de que figuras como Mário Soares ou Freitas do Amaral são exemplo. Neste panorama A SEDES aparece como uma organização de COMO-NÃO-HÁ-SENADO-NÓS-FAZEMOS-UM!
Representando uma mão cheia de ex-ministros do PS e do PSD a SEDES é antes do mais algo que se pode descrever como uma ASSOCIAÇÃO DOS CULPADOS DESTE TRISTE ESTADO DAS COISAS, e é surpreendente que venham a público anunciar que se prepara uma revolução. Mandem os páraquedistas!
Preocupante é a cobertura que esta iniciativa privada mereceu da comunicação social, o manifesto da SEDES fez o pleno de todas as primeiras páginas, até o JMF anda um bocado revolucionário.
Jornalistas, não estais cumprindo as vossas obrigações constitucionais!

19.2.08

Viva a Ministra da Educação!

José Sócrates foi bem claro no seu empenho pessoal na avaliação dos professores. O ensino artístico não pode ser apanhado na refrega que vai ser grande da discussão da carreira docente! Para isso era preciso que a questão se resolvesse sem descrédito da autoridade do ministério. Aliás, parece-me que Sócrates só pode achar inoportuna esta frente de batalha num momento destes. Era preciso que a contestação se cingisse à suspensão da reforma e ao retorno aos estudos e prosseguimento das negociações. Bastava a demissão do estudo de Domingos Fernandes, que é contestado por todos os sectores da opinião, e alguma vontade de apaziguamento. E nem era preciso humilhar dois secretários de estado, bastava um.
isto e a garantia que o decorrer das negociações não incomodava a normalidade do ano lectivo que pela segunda vez se ressentiu da estratégia do ministério.

16.2.08

A indignação


Num debate que começou da pior forma com uma peça mentirosa (mais uma) sobre o Conservatório de Braga, Vitorino de Almeida conseguiu exprimir a justa indignação da comunidade artística. Bravo!
O maestro disse esta coisa interessante que parece que ninguém compreende, disse que não precisamos de mais músicos, ou seja, que o ensino artístico que já temos produz profissionais de forma satisfatória. É este frágil edifício que apenas precisa de manutenção, melhoramento e expansão sustentada que o ministério vem de novo arrasar pela base com esta alucinação estalinista da refundação do ensino artístico.
Caso para dizer, como o outro, se sou artista é porque me posso indignar!

A pergunta mais estúpida

A Ministra da Educação foi ao Expresso da meia-noite tomar um chazinho com os amigos jornalistas. Só mesmo no fim deste programa que é de jornalismo mas mais parecia uma sessão de propaganda é que Nicolau Santos achou por bem falar do ensino artístico e faz uma pergunta tão estúpida sobre um hipotético aluno que viria hipoteticamente das Caldas da Rainha para ter aulas hipotéticas em Lisboa que até a ministra não sabia bem o que dizer e sugeriu que lhe dessem uma hipotética bolsa. Importa-se de repetir?

A notícia mais estúpida


Em dia de manif a ministra foi distribuir uns milhões pelos conservatórios traidores no norte e o editor do Público achou por bem encobrir o protesto à sombra desta manobra grotesca. O mesmo se passou na edição do noticiário da RTP, devem ter chovido telefonemas ministeriais por essas redações todas!

Ana Drago


Familiarizado de longa data com as lutas da arte habituei-me de tal maneira a confrangir-me sempre que um responsável político abraça a causa e depois compreende tudo ao contrário e diz uma data de disparates que só posso surpreender-me com o discurso da Ana Drago. Além de se ter documentado a deputada compreendeu o que está em jogo para além dos estereótipos sobre arte, cultura e ensino que costumam informar aquelas cabeças burguesas da Assembleia da República.

14.2.08

E as escolas superiores estão a assobiar para o lado?

O bigode integrado


Segui com interesse o debate sobre o ensino artístico mas só conseguia pensar no bigode! Será este um bigode integrado, articulado ou supletivo?

6 palmos de terra


O Lord of the Darkness da 5 de Outubro mandou um dos seus Minions of Terror para enterrar o ensíno artístico! É impossivel dialogar com gente que traz em cada ouvido 6 palmos inteiros de terra.

13.2.08

O mar da música

5.2.08

Demissão imediata de Domingos Fernandes!

Pedir a demissão de um ministro é uma das consolações básicas da democracia, na sua retórica simples de reclamação a exigência da demissão da ministra da educação dá-nos ao menos a ilusão da eficácia de mecanismos de consequência na constituição.
Pode-se pedir a demissão de um professor universitário por assinar um estudo mentiroso, mal-intencionado, manipulador, desinformador e absolutamente desprovido de fundamentação ou método científico? Não. É outro consolo, mas este provém talvez da separação da igreja e do estado, ninguém é despedido por ser mentiroso, e desde a última reforma do catecismo que deixou de poder ser invocado o argumento dissuasivo e vindificativo dos suplícios do quinto círculo!
Domingos Fernandes na sua qualidade de historiador da educação leva o despudor, a falta de método ou a simples ignorância ao ponto de no seu estudo nem se referir, tão-só e apenas, à última reforma-como-esta que se experimentou com resultados nulos e desastrosos no conservatório nos anos 70!
Será que a comunidade científica se vai encarregar de punir exemplarmente este seu colega prevaricador? Não me parece. Tivesse este senhor assinado um relatório assim na área da saúde e estava frito, deixava logo de ir a congressos em Cancun! E talvez pudesse incorrer mesmo em matéria susceptivel de processo criminal por leviandade.

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A doutrina do choque no ME


A estratégia de Maria de Lurdes Rodrigues para acabar com o ensino artístico conforma-se exactamente às melhores práticas do Pentágono, é como se a ministra tivesse declarado a existência de armas de destruição artística no conservatório! Começa por instalar a crise declarando unilateralmente a necessidade e urgência de uma reforma, depois, enquanto está tudo de cabelos em pé, vai paulatinamente desmantelando o sector, começa por despedir os alunos para em seguida despedir os professores e entregar um mercado garantido à iniciativa privada. O único objectivo destes desmandos é de facto a privatização do ensino público, e aqui entramos pelo terreno ideológico e no tema da traição de Sócrates aos ideais do seu partido. É um tema apenas demasiado familiar, Tony Blair fez um carreirão a pregar golpes como este.

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2.2.08

Rheya

31.1.08

Das Marchen

Não sei se desta vez houve récita de galo para as hostes do BCP, espero que tenham lá ido e reconhecido os esqueletos de cartola a lamber o ouro que se acumula nas fendas, um tema muito actual! Não fosse por servir de profilático, que esta malta empedernida dos prodigios da biblia não se impressiona com nada.
Mal impressionado fiquei eu com a encenação de Das Marchen, acho mesmo que o trabalho de Karoline Gruber e restante equipa dos amigos do fritz arruinou irremediavelmente o que podia ter sido uma grande ocasião da nossa cultura, obrigado Karoline, obrigado pelo enxovalho!
Encenação indecorosa, pindérica, pirosa, desproporcionada, despropositada, atulhada, grotesca. E tinha candeeiros do IKEA! E bailarinos em rotinas de PARLE A MA MAIN! Peixinhos, nabos, sacos de super-mercado, muito verde-relva, muito Pinabausch, muito Bob. Uma canseira e um excesso de papelote.
Notável foi o aperto da crítica em pronunciar-se sobre o assunto. No Público fizeram-na anónima e em out-sourcing e até o nosso Crítico das ideias fortes achou por bem justificar-se longamente. Na verdade o único crítico com areia suficiente na camioneta para dizer algo sobre esta música é o Augusto Seabra, que não gostou.
Eu adorei, como de costume. Por defeito entretenho-me com a música contemporânea e desde que me lembro de ouvir Emanuel Nunes gostei sempre, é uma música forte, tensa e cheia de carácter, proveniente de uma camioneta tão grande e tão cheia de areia que nenhum compositor da nossa praça lhe chega sequer perto. Adoro bandos de contrabaixos e matilhas de violoncelos, abismos de gongos e negritudes de contra-fagote, interferências electro-acústicas e sufocos de violinos. Só os serialistas mediocres não percebem a liberdade, expressividade e beleza contingente das realizações de matriz, na verdade os excessos de ontogénese demiúrgica de que fala AMS realizam-se localmente em estruturas retóricas perfeitamente reconheciveis, clássicas e de grande beleza. Mais se diga que o argumento do "dumb-down" para a ocasião da ópera é, lamento, insustentável. Quanto ao libreto o Emanuel lá sabe, e cada um que saiba o que fazer das suas serpentes, dos seus gigantes, dos seus rios e das suas sombras, tem 4 horas para pensar no assunto! Ou teria, se de cada vez que abre os olhos não se visse no circo da Karoline.
Tal como a encenação demasiado ruidosa, também é dificil ouvir a partitura por trás do excesso de ruido da ocasião da produção, custa ouvir esta música a pensar nos milhões que custa. Os que se gastaram na produção musical, mais disparate menos disparate, estão justificados pelos resultados, passe a prestação assim-assim do coro e um tenor que arruinou o belissimo trio amplificado na segunda parte. Havia um baixo soberbo, Chelsey Schill esteve na ocasião excelente, o chefe, Peter Rundel, esplêndido, a orquestra grande e óptima, creio que alguma imprecisão dos ataques foi recorrente mas isso o Emanuel, que por vezes abria muito os olhos, lá saberá.
Para a encenação, que deve ter sido ainda muito mais cara que a orquestra, tinha bastado, no limite, um projector azul, outro branco e, como se trata de uma mega-produção, um outro verde. Isso e um bocadinho de gosto.

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10.1.08

The Shock Doctrine

31.12.07

Afinal tem

30.12.07

Ó pá ó Pacheco Pereira, tu não me lixes o meu blogue, pá!


Então as doze pessoas e meia, incluindo, até ao seu desaparecimento, a mãe do Woody Allen, que visitam esporadicamente o meu blogue estavam convencidas que aqui encontravam o esclarecimento, a informação, o debate, enfim, uma verdadeira orientação espiritual, e afinal isto não é mais que o espelho fiel da nossa proverbial pobreza, ignorância e arrogância. E nem tem mulheres nuas!
Pacheco Pereira é daqueles sócios da esquerda, da inteligência, que desgraçadamente se sentou numa cadeira da direita e faz por cá muita falta. Às vezes não se percebe se é redondo ou quadrado.
Não sei que blogues andou o Pacheco a visitar para ficar tão deprimido. Se calhar passou por aqui! Assim não me admira mesmo nada. Podia ter deixado um comment, contribuir para o debate! a informação! & etc..

22.12.07

Música antiga na ZDB


Os Lisbon Underground Music Ensemble tocaram na ZDB. Sendo capaz de sintonizar o comprimento de onda emocional de uma peça de Monteverdi ou Machault, quando ouço uma peça de Swing fico invadido por um tédio incontornável pela música antiga. Tirando essa perspectiva um pouco desmotivada, achei os arranjos de Marco Barroso muito engraçados, os melhores momentos soavam a disco sound. Uma nota para o eterno problema de amplificação na ZDB, os baixos estão distorcidos, sempre, há anos! Eu sei que a ZDB é muito à frente mas grow up! e arranjem um som decente para aquela sala que já é histórica. Outra nota para a banda, eu sei que no mundo do jazz e no underground não se fala muito disso, mas podiam tocar mais afinado e com mais... swing!

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20.12.07

Cura strikes again


Consta que depois de Lisboa José Cura foi para a Austrália repetir a façanha com a Sinfónica de Adelaide que logo ao primeiro ensaio declarou que não tocavam nem mais uma semi-colcheia com aquele senhor.
A OSP caracteriza-se por aos anos não achar nada sobre nada, nunca se pronunciam sobre qualquer assunto, parece que (com alguma razão, mas bem podem esperar sentados!) ficam à espera que alguém pergunte. É um pouco raro e muito disfuncional.

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18.12.07

Nuissances

Tenho um amigo que ao entrar numa sala com 3 grandes retratos de Bach, Mozart e Verdi declarava: Ah, 1 génio!
A partitura do Rigoletto é époustouflante, para não dizer assustadora, e o nível de pateticidade do libreto é quase insuportável e deixa-nos à beira do ataque de nervos. De resto, não se viu uma toilette.
Avistou-se um smoking decente que nos fez pensar que bom que seria se o povo do S. Carlos se apresentasse todo aperaltado e, já agora que imaginamos, não estava lá um maestro a esforçar-se por fazer (mal) Tchaikovsky com uma partitura de Verdi, acrescentava-se um pouco disto ao soprano, muito daquilo ao tenor, dispensava-se o serviço de pratos quadrados que parecem cinzeiros no não-obstante simpático restaurante do teatro e tinhamos uma bela noite de ópera, que já nem a queriamos memorável.
Mas está assim a noite de ópera em Lisboa, maltrapilha e cheia de pequenas nuissances. A encenação fazia lembrar as casas de banho do Lux, com um adereço da Joana Vasconcelos! Não se percebeu a necessidade de desestruturar o palco daquela maneira para nada. Para compensar, os figurinos eram bonitos, os homens não vinham de collants à Robin dos bosques e adorámos as pernas das bailarinas que já agora podiam ter trazido posta a lingerie. O coro esteve excelente e o protagonista fez as pedras da calçada chorar devidamente.
Por falar de nuissances, O QUE ESTAVA A FAZER UM TÉCNICO DE LUZES ESPANHOL AOS GRITOS NA 4a ORDEM? Foi, assim no meio da récita, um bocadinho extraordinário, esta malta da electricidade está sempre em ensaio de luzes, não há nada a fazer.
Passando da nuissance para o embaraço, espera-se que herr Dammann tome nota dos silêncios embaraçados que deram as boas-vindas às arias do tenor que, parece, vamos ter da aturar durante os próximos 4 anos.

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12.12.07

Democracia nas escolas, já!

Este blogue é um bocado panfletário mas tenho de dizer que não me faz pena nenhuma o fim da suposta democracia nas escolas, esses antros de arbitrariedade e disfunção corporativa. Aliás, depois do debate de ontem bem podemos colar panfletos nas paredes do metro que já foi decidido pela maioria. A qualidade de vida democrática na escola é tão fraca, burocrática, alienante e fascista que a extinção da comissão directiva não desperta qualquer nostalgia. Vamos estar atentos ao processo de escolha das direcções que é agora exclusiva responsabilidade do ME. Esperamos sinceramente que não haja barafunda, na verdade não devia ser muito complicado encontrar directores para as escolas e de qualquer forma ninguém gosta deles! Mas com aquelas cabeças do ministério nunca se sabe.
A democracia nas escolas tal como está ninguém a quer, nós queremos a outra, a verdadeira que não se esgota na eleição do director. Fica o panfleto, não vá alguém fazer-se esquecido.
E as Escolas Superiores estão a assobiar para o lado?

11.12.07

Joana 5 - Telmo 0, zero!


Mais uma abada que levou, desta vez o Telmo Correia da Joana Amaral Dias na TV. Caso para dizer que os argumentos de mercearia costumeiros e vezeiros da direita foram uma vez mais presa fácil de apenas um pouco de inteligência e compreensão. Se isto parece tudo tão óbvio porque é que as coisas não mudam? Ou estão a mudar?

Aos tiros no escuro e a bater na madeira


"Uma das cantoras que entrará em Das Märchen é Chelsey Schill, que também é Gilda neste Rigoletto e participará noutras produções. Este modelo de contratação por períodos longos vai continuar?
É um modelo de que eu gosto muito. Quero formar o nosso próprio ensemble de cantores. Não para toda a vida mas por contratos de dois, três ou quatro anos. Serve como identificação do teatro. Eles não vêm só para uma produção, mas vão viver aqui. Vamos sempre precisar de convidados e estrelas internacionais - isso não vai mudar. Mas vamos ter ambas as coisas. Até a Ópera de Viena tem este modelo. Para já, temos dois cantores com este tipo de contrato. O outro é Richard Bauer, que fez uma excelente audição. Chelsey Schill também fez uma audição... É uma cantora nova, em início de carreira, com grande potencial. E a Gilda é o papel perfeito para uma jovem soprano lírico de coloratura. Tivemos óptimos ensaios e espero [bate com a mão na madeira] uma boa estreia."

"Ficou satisfeito com os primeiros concertos da OSP da temporada?
Tiveram muitos aspectos positivos. Não conhecia a orquestra antes, por isso a programação foi um bocadinho um tiro no escuro. "

Ao contrário do SEC que conduz as suas próprias entrevistas, o novo director do S. Carlos teve de responder a um par de perguntas embaraçosas do P.Boléo e da C.Fernandes. Para já estamos contratados para ouvir a Chelsey Schill e o Richard Bauer durante 2, 3 ou 4 anos! Não podemos ao menos alegar intermitência?
O maestro que veio fazer a nona é que parecia que estava aos tiros no escuro, pelos vistos acertou todos na orquestra e nem um no director!

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10.12.07

Técnicas de interrogatório


O nosso secretário de estado da Cultura que tem gosto pela hermenêutica também cultiva a retórica. A fórmula da pergunta e resposta ao mesmo tempo que estabelece uma presunção de objectividade é o eficaz garante que não há nenhuma pergunta incómoda para responder. Para obviar a esta falha menor vou também praticar o estilo interrogatório.
Sendo a intermitência uma situação de excepção o Estado vai continuar a investir nas poucas estruturas que ainda praticam o contrato de trabalho com os artistas? Não sei, está para ser regulamentado.
A OSP, a ONP, o CTNSC, o TNDM e a CNB vão poder praticar a intermitência? Não sei, está para ser regulamentado.
A intermitência garante 30% da remuneração anterior, não era melhor ir para o desemprego? Era, mas assim sai mais barato.
O que vai acontecer quando a intermitência chegar ao Ministério da Educação? Já lá está ao tempo! Mas assim vai sair ainda mais barato.

9.12.07

Rocket Man


Este rapaz anda a ser mal produzido.
David Fonseca tem uma bela voz, pessoalmente acho que é um pouco enrolada e demasiado característica para a pop, mas sabe cantar afinado, faz lembrar o Bryan Ferry com uma pronúncia terrivel. Está a ser produzido pela Universal e o resultado é um pouco como o video que anda por aí: pega-se no David e cobre-se de chocolate (muitos euros em estúdios em Londres) e temos um disco pouco inspirado e nada original. A culpa é toda da produção que quer vender um produto que não está lá. O David devia ver-se livre do chocolate e cantar em português. Daqui a uns anos.
Por falar em euros, quanto custa um cover do Elton John?

6.12.07

O capote de Helena


A ideia de uma crónica em pingue-pongue é tão pingue-pongue que só podia vir da cabeça do JMF (SONAE), mas lá nos dispusemos a seguir o jogo que se tem revelado monótono, Rui Tavares ganhou por capote 7-0, 11-1 e já vai pelo menos nos 21-11, e ainda não houve um ponto que desse luta!
Pode-se dizer que o estilo de doméstica de Helena é presa fácil para a prosa escorreita do Rui, mas o que aqui nos traz é a abada que o argumentário reaccionário da direita tem levado frente a uma apenas moderada exigência de racionalidade que é a da esquerda admitida à impressão e ao jogo na mesa ping dos jornais pong de hoje em dia.
É impressionante pensar que ainda há apenas 3 anos estavamos em governo do Santana! Ainda não há 2 o Pedro Mexia, malgré lui, organizava debates sobre a cultura no S. Luis (É a cultura, estúpido!), Dalila Rodrigues era o exemplo da gestão cultural, todos os jornais admitiram à redacção a opinião mais retrógrada e estavamos no auge do neoconservadorismo com o Espada a dislatar e o JMF a vociferar. Neste periodo favorável à multiplicação das Helenas e Filomenas nas colunas da opinião, a esquerda pareceu perder por momentos o pé, e ainda agora procura o espaço do debate que está do seu lado ilegitimamente ocupado por sócios que não são sócios mas estão sentados. A verdade é que, contra todas as expectativas, algo tem sido feito, a opinião conservadora está em queda e estão aí as crónicas do Rui e de outros a fazer a diferença e a recuperar audiências. Quando a opinião publicada anda sustentada e sistemáticamente demasiado longe da maioria na assembleia (a opinião pública) paira uma dúvida legítima sobre a democracia e a transparência da informação.
Fica a perplexidade pela intensidade, virulência, despropósito, descaroço, descôco, oportunidade e desvio deste surto de sarampo conservador ao tempo da revista Atlântico, da Rádio Europa e da Cimeira dos Açores. Só podemos pensar em subsidiarização massiva no quadro dos mini-planos Marshall a que o 9/11 deu origem.

2.12.07

Raphael, reviens!

Já estou farto de brincar aos críticos. Adorei a ópera de Bernard Cavanna, uma lufada de ar fresco. Adorei a partitura, que foi muito bem executada e dirigida, e o libreto minimal de M. Beretti, que tem um casalinho de apaixonados e nada mais nada menos que um Tableau de l' Operation a la Taille! E falam do declínio da cultura francophone. A música de Cavanna faz lembrar Henry Pousseur (que é belga).
A encenação estava toda slick e, porque não dizê-lo, giríssima! Os críticos e os adjectivos... Por vezes atrapalhou-se com a movimentação dos cantores, e não se percebeu a necessidade trabalhosa da deslocação dos músicos e a montagem do tableau da operação assim apinhado à esquerda de cena, mas divertimo-nos a valer. Não há como uma citação de Maffesoli para cancelar as visões metafísicas.
Rui Baeta esteve esplêndido como chefe dos maus e impagável a fazer de encenador. Ana Quintans estava linda a dizer coisas ferozes em francês! E já me falta o adjectivo para o Ricardi Ceitil, que esteve óptimo, pronto, e para o resto da troupe que óptima esteve.

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A Chanson e o Tintinolho


Suponho que um dia em que se ouça um recital de Chanson Française é um dia bem passado. Como é costume nestas ocasiões da melodie os pianistas acham que Faurè se deve tocar como se toca (mal) Debussy, e é vê-los às aranhas à procura de cores sofisticadas onde devia estar ritmo puro e simples.
Fomos ver o último espectáculo do Curso de Encenação de Ópera e demos com a linda voz de Job Tomé, veludo, carácter e distinção. Vê-se pelo gosto que estuda com o Rui Taveira, quanto mais depressa deixar de trabalhar com Peter Harrison melhor, antes que estrague!
Devido talvez ao mau entendimento de expressões como "c'est l'extase langoureuse" ou "les grands jets d'eau parmi les marbres", tornou-se comum o arrastar destes diamantes da chanson pelos pântanos de Saturno. Nada podia ser mais ilegitimo ou desapropriado, mas já estamos habituados e foi com santa paciência que seguimos as perorações do actor que tentou o melhor possivel levar avante uma colagem de textos de gosto duvidoso. Acho que era Gide que apontava, com escândalo, uma imagem de mau gosto na Recherche - há disso por todo o lado na poesia de Verlaine que assim em tradução, desprovida da musicalidade que é a sua maior qualidade, soa vulgar e repenicada, aliás como a encenação, que foi um verdadeiro ornamento na esquina do telhado da opera de paris!
Na segunda parte foi com sincera bonomia que assistimos ao drama campestre de Janaceck. Sou sempre derrotado pela tradução dos textos simplórios que suportam aquela música lindissima, parecia que estávamos no Tintinolho com o sr. Abel a falar com os bois!
Maria Luisa de Freitas e João Miguel Queirós muito bem.
A encenação, que não precisava para nada do episódio em backstage ao princípio, estava engraçada e foi muito bem sucedida no propósito de fazer uma imagem a partir daquela não imagem.

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29.11.07

Anti-heróico


"O que se passou a partir de 1981 foi obviamente uma conjugação de vontades individuais, a começar por quem era o editor da “Revista”, Vicente Jorge Silva, mas não podendo ser esquecido que o sinal verde veio do então director do “Expresso”, Marcelo Rebelo de Sousa. Talvez hoje se possa observar melhor, considerando as personalidades, que foi também o facto de o primeiro caderno estar tão politicamente vocacionado que permitiu um outro tipo de abordagens, não estritamente culturais mas que certamente de forte matriz cultural, na abordagem reflexiva da actualidade. E, depois, o estilo da “Revista” estava no ar do tempo, de um certo “culto cultural” mesmo, até de uma estetização do quotidiano, na qual, pelos menos nos primeiros anos, se fazia sentir a ressaca do “tudo político” de 1974/75 — e este quadro, que tem de ser atendido, não é propício a exercícios meramente nostálgicos."
AMSeabra, letradeforma.blogs.sapo.pt/

Também eu, tal como Haendel e o Pedro, sempre gostei de anti-heróis. Augusto M. Seabra está de volta e em boa forma num blogue em que até os exercícios meramente nostálgicos são interessantes.
Como se pode ver pelo parágrafo acima, o que se passou a partir de 1981 foi, obviamente, uma balbúrdia que deixou a cultura em estado de choque até hoje. Mais que a traição aos ideais de abril ou o colaboracionismo com as forças da reacção, a ingenuidade e a demissão marcaram esta geração que pensava que mudava o mundo a fazer revistas espevitadas para o Balsemão, o Marcelo e o Paulo Portas! Acomodaram-se quase todos. A inteligência é uma maldição e Augusto Seabra não foi capaz de fazer a transição, mudar de visual e de ideias, instalar-se no sistema, aos poucos passou-se para a resistência.
E aqui está um belo exercício de nostalgia recriminatória! Contudo, o que aqui me traz é antes um exercício de actualidade, neste caso, a actualidade tenebrosa da censura que estando oficialmente terminada e relegada à categoria do impensável continua a minar de forma engenhosa e ainda mais daninha o sistema. A partir de certa altura, desde que desalinhou a opinião, Seabra sofreu de forma acintosa dos rigores da moderna censura que o deixa escrever à vontade mas vai-lhe ao pão. É um resistente, a sua passagem em exclusivo para a internet marca o fim de uma época e assinala, a par do eclipse ou demissão da crítica, a falência completa da relevância da opinião impressa na área da cultura.

28.11.07

A fugir do encenador

"Tal como Haendel, sempre tive gosto pelos anti-heróis. Será que de um fim trágico é possivel fugir?"
PR, encenador

Na ópera os finais trágicos são efectivamente um bocadinho dificeis de evitar, mas pode sempre tomar um ou dois comprimidos de antiagrippina!

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27.11.07

La Voix Humaine


Discretamente escamoteado o insucesso do Estúdio de Ópera do Porto, os já não tão jovens cantores do costume encontraram porto mais seguro no Curso de Encenação de Ópera da FCG, que parece decorrer sob o signo da felicidade e que vai apresentar nada menos que 6 óperas em 3 espectáculos! Ao contrário do que é habitual, a sobrevivência e reposição de pelo menos algumas das produções está assegurada e é um sucesso garantido.
Fomos ver a Voix Humaine, de Poulenc, e constatámos o envelhecimento do texto de Cocteau que já não tem nada para dizer, salva-se a partitura que é primorosa mas a que faltou algum sentido interpretativo e densidade emocional. Sónia Alcobaça divina, segurissima e apaixonada. A encenação de José Lourenço, muito engraçada, simples, eficaz e bem feita, só mesmo no final escorregou para a secção pretensão, de repente parecia que estávamos à porta do Frágil com a protagonista num vestido pindérico da Fátima Lopes!
Adorámos os candeeiros do IKEA.

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24.11.07

Secca!

Já sabiamos que há uma versão original do Requiem de Brahms para coro e piano a 4, mas porque temos de a ouvir pelo Coro do S. Carlos quando está ali uma orquestra inteirinha à espera? Estas preciosidades de programação fazem lembrar a estreia do auditório grande do CCB com uma cantora gorda e um pianista magro, ou a grande vergonha que foi o Rinaldo com piano, cravo e flauta de bisel no S. Carlos há uns anos atrás!
Já há orquestras inteiras em midi, com um conveniente botão on/off que é uma emulação perfeita do estatuto do intermitente.